Blog do Imfernandes

O Blog da Mutação (Fotos, Livros, Música, História e Estórias, Informação e Opinião)

Nome:
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

25 abril 2006

O Casarão

Passo a narrar agora a história de uma casa que atrelada a uma família por gerações possui um relato no mínimo esquisito. Esta fica até hoje em um bairro que já foi nobre, mas que chegado os tempos da modernidade passou a ser sombrio. Antes um rio limpo passava por aquela avenida e era agradável passear por sua margem tomando um pouco do sol matinal que sempre fazia brilhar um ar de felicidade e satisfação nos que naquela vizinhança, e mais especificamente naquela avenida residiam. Bem arborizada, era possível ver e escutar o canto dos pássaros que encontravam ali o lugar perfeito para fazer seus ninhos. Era possível distinguir maritacas, sabiás, pardais e até mesmo canários habitando as árvores daquele pedaço da cidade. Contudo, não se encontravam somente casas por ali como o leitor possa estar pensando. Pode parecer estranho hoje, mas estamos falando de dentro da cidade do Rio de Janeiro no ano de 1961. Naquele ano, já haviam pequenos prédios de três andares espalhados por aquela avenida que vou me abster de contar seu nome para que os personagens desse conto não sejam identificados, pois todos, ou melhor, quase todos continuam vivos e morando naquele mesmo lugar por mais assustador que isso possa parecer daqui a algumas linhas.

O casarão da avenida, assim era conhecido por ser o único, era habitado por uma família que não gostava muito de se expor. Eram pessoas reclusas, que abdicaram do convívio social não por falta de educação, por serem esnobes ou coisa do tipo. Mas por não terem jeito mesmo com isso. Não sabiam como lidar com o mundo exterior; encontravam dificuldades até mesmo para falar um simples “bom dia” aos visinhos. O casarão em estilo colonial tinha (e tem ainda hoje) dois andares e em cada um dos andares uma enorme varanda correndo ao longo de sua fachada. Porém, só do andar de cima podia-se ver a rua, pois um enorme portão e muros altos garantiam o isolamento daquelas pessoas com o mundo aqui fora. Entre a casa e o muro que a separava da rua, um pequeno jardim mal cuidado com uma roseira retorcida e seca e algumas margaridas cheias de mato em volta fazendo a borda do caminho de pedra que conduzia até o portão de entrada. À esquerda da casa ligada àquela área da frente encontrava-se uma longa garagem que certamente dava para três ou quatro carros levava até os fundos da casa onde encontravam-se a lavanderia em um anexo, um banheiro e um quartinho de empregada debaixo de um telheiro. Tudo muito bem construído e acabado. A casa, cor de um amarelo pálido e detalhes em ardósia, chamava a atenção de quem passasse na sua frente talvez nem por sua imponência, mas como diriam os visinhos, por uma energia difícil de se traduzir que dali emanava.

Para a vizinhança aquela era uma família envolta em mistério. Faziam comentários à “boca pequena” que, aquela senhora de meia idade, mãe de dois filhos e esposa exemplar, tinha o poder de conversar com os mortos. É fato que naquela época a umbanda e o candomblé já eram estabelecidos na cidade e o número de praticantes mesmo sendo pequeno, pois eram reduzidos aos guetos os locais de culto, vinha crescendo se não vertiginosamente, com algum vigor. Mas parecia não ser esse o caso. Se pudermos fazer uma tosca comparação, a matriarca do casarão não “recebia” os mortos ou entidades como nos cultos afro-brasileiros, mas dizia-se que como um xamã ia até o mundo dos que já se foram. Ninguém sabia explicar o porquê desses comentários, mas eram unânimes em dizer que aquela mulher tinha algo de sobrenatural em sua aura. Seu marido, um comerciante de tecidos com loja no centro da cidade, era uma pessoa calma e passiva. Acatava as decisões de sua esposa sabendo que estas eram muito bem tomadas por ela que tinha tempo de pensar. Ele não tinha tempo para pensar em coisas que não dissessem respeito aos seus negócios. Não que fosse uma pessoa avarenta, mas a concorrência no comércio de tecidos era quase desleal com todos aqueles comerciantes árabes que ali também abriram lojas. Tinha que se desdobrar para continuar dando o sustento da família e não deixar faltar nada. É bem verdade que antes da chegada dos árabes era mais fácil e ganhou um bom dinheiro nesse ramo. Nessa época dava mais atenção à família e ajudava a pensar nas contas da casa, nas viagens de férias, na educação dos filhos, mas quando os tempos mudaram delegou todas essas questões à sua mulher para que pudesse se dedicar exclusivamente ao trabalho pelo menos nos dias úteis. Ela não reclamava, pelo contrário, a decisão foi tomada de comum acordo entre eles, pois sabia que o risco da loja falir existiria caso essa decisão não fosse tomada. Com isso, saía de manhã cedo para o trabalho e voltava lá pelas nove da noite, pois como dono da loja, dispensava todos os funcionários e fechava-a ele mesmo isso quando não aproveitava o sossego do ambiente vazio para fazer algumas contas e balanços. Cansado, queria tomar banho, comer e dormir, mas ainda assim conversava com sua esposa sobre como tinha sido o dia dela e dos filhos. Só não conseguia nunca estender por mais de 10 minutos essa conversa, pois o sono sempre o impedia. Os filhos só viam o pai praticamente nos finais de semana. Tinham seis e sete anos respectivamente e eram crianças, assim como os pais, introvertidas e aparentemente com poucas amizades. Freqüentavam a escola, mas tinham dificuldades em arrumar amigos. As outras crianças o achavam esquisitos e calados. Não gostavam de jogar bola e nas poucas vezes que tentaram descobriram que não levavam o menor jeito para a coisa. Gostavam era de correr, especialmente o mais velho. Nas aulas de educação física quando o professor dava aulas de atletismo este adorava. Não era um dos mais rápidos, mas tinha pique para correr por mais tempo do que qualquer outro aluno de sua faixa de idade. O professor dizia que este ia ser maratonista tamanha sua disposição para a corrida. Corria como um louco que quem estivesse em busca de uma liberdade, de algo que nunca chegava. Seu irmão mais novo corria também, porém mais por identificação com o mais velho. Era como se correndo eles não tivessem que entrar em contato com as pessoas, contudo parecia ser uma porta de contato com o mundo.

Os anos se passaram e os garotos cresceram. O mais novo virou comerciante como o pai, mas trabalhava para terceiros. Nunca ficou muito bem claro no que de fato ele trabalhava. Ora estava no ramo de instrumentos musicais, ora no mercado imobiliário; ora vendia seguros, ora coisas velhas em um antiquário. Com os imóveis conseguiu juntar algum dinheiro e comprar primeiramente dois apartamentos no prédio ao lado do casarão e mais tarde comprou o restante que faltava. Não ficou rico. Era um prédio modesto de três andares, mas que só tinha um número por andar. Nessa época o bairro já não tinha a mesma beleza de antes. O sol fora tapado definitivamente por um imenso viaduto que além de poluir a visão, também poluía o ar tamanha quantidade de carros que por ele passava por dia isso sem falar na poluição sonora começando de manhã cedo terminando tarde da noite. O rio antes limpo virou esgoto a céu aberto e passou a ser chamado de canal; os pássaros antes vistos mudaram de endereço por melhores condições de vida e os novos habitantes eram ratazanas que colocavam medo em cachorros e baratas. O local passou a ser freqüentado também por vagabundos e viciados que se utilizava do breu da noite para roubar residências e se drogar livremente sem falar na população de mendigos que não tendo um teto para morar se protegiam do sereno e da chuva debaixo da ponte. Famílias inteiras ali “fixaram residência” sem que a prefeitura tomasse uma providência digna para esses infortunados que ali iam ficando.

O filho mais velho se formara em engenharia e logo passou em um concurso público que lhe dava um salário honesto além de todas as garantias que um empregado do Estado tem. Com a vida financeira estabelecida quis arrumar uma parceira. Não dava sorte com as mulheres. Era uma figura desajeitada que parecia viver em outro mundo. A beleza também não era seu forte e isso dificultava muito suas pretensões. Os amigos do trabalho bem que tentavam dar uma força. O apresentaram para mais de quinze mulheres de diferentes estilos, mas não adiantava. Este não sabia como conduzir uma conversa com uma dama. A única mulher de sua vida tinha sido sua mãe e até esta já era falecida há alguns anos. Sobre a morte dela falaremos mais adiante. Os colegas já nem mais o chamavam para sair, pois sempre este terminava as noitadas sozinho e seu jeito esquisito incomodava as garotas que conquistavam porque estas achavam que o grupo inteiro no fundo devia ser daquele jeito, sem jeito. Não era má pessoa, mas definitivamente estava fora dos padrões. As pessoas mais próximas diziam que ele nunca conseguiria uma mulher porque para isso ela teria que ser como ele, exótica. Definitivamente, fora daquela família o mais exótico dos exóticos não deveria chegar perto. Mas ele achou.
(continua...)

20 abril 2006

Dioniso Exilado


Dioniso. Resolvi postar uma homenagem a esse deus que nós ocidentais teimamos em afastá-lo de nosso convívio reprimindo nossas emoções e nosso corpo.
Dioniso, ou Baco (na mitologia romana) - sim, o deus do vinho - é muito mais que um gordinho bêbado no meio de uma orgia.
Numa dicotomia criada por Nietzsche, a sociedade de hoje prefere viver o lado apolíneo das coisas jogando fora completamente o lado dionisíaco. No entanto, quando o faz, acaba sendo titânica (referente aos titãs - inimigos de Dioníso)e por isso vemos essa onda de violência crescente: violência física, ética (nossos parlamenteres, por exemplo), a violência do verticalismo, ou seja, manda quem pode e obedece quem tem juízo elevado a máxima potência.
No entanto, sai no jornal de hoje que os EUA já pensam em atacar o Irã com bomba atômica(!!). Talvez, então, com a iminência dessa ameaça, seja essa a única potência divina hoje em dia a quem realmente tenhamos (ainda) algum respeito, pois ela nos coloca diretamente face-a-face com a morte.
Coincidentemente (ou não - como diria Caetano) Dioniso também tem um lado seu associado à morte. E agora José?
Mais uma vez, a humanidade se encontra numa encruzilhada.

Indicação de Leitura: Dioniso no Exílio - sobre a repressão da emoção e do corpo. Rafael López-Pedraza. Ed. Paulus, 2002.

Abraços...